imagem, Backrooms, mininovelas e educação visual.
- Ipsum Nocce
- 22 de mai.
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Atualizado: 26 de mai.
Para início de conversa, o que são Backrooms? Backrooms são espécies de lugares sem rosto, espaços vazios situados entre o lugar e o não-lugar; presenças da ausência. E lhes digo: é até desconfortável falar de algo que, por si só, já demonstra não desejar ser imagetizado. Trata-se, portanto, de um tema que resiste à imagem, são - em parte - recusas da imagem. Mas que, paradoxalmente, está visceralmente ligado aos comportamentos e à geração atual.
Tudo começou quando uma imagem de um corredor vazio foi publicada acompanhada da frase quase cabalística: “Se você não tomar cuidado e sair da realidade nas áreas erradas, você vai acabar nas Backrooms.” A ideia — como tantos outros fenômenos contemporâneos — surgiu no 4chan em 2019, plataforma associada à Deep Web e responsável por desencadear diversos acontecimentos da cultura digital que ultrapassaram o ambiente virtual e repercutiram no mundo físico. Foi nesse espaço, inclusive, que emergiu o grupo Anonymous. Aviso aos navegantes: o 4chan pode ser, em muitos momentos, um ambiente extremamente inóspito e marcado pela ausência de regulação.

Relacionada aos chamados “espaços liminares”, a imagem e a ideia se difundiu rapidamente pela internet e conquistou ampla repercussão (Em 2026 virou um filme de terror: Backrooms - um não lugar). Esses ambientes, embora aparentem certa familiaridade cotidiana, tornam-se perturbadores quando esvaziados de presença humana, produzindo uma atmosfera melancólica (Pra quem está lendo este texto e gosta de retro games, vai lembrar das salas e corredores vazios emocionantes e assustadores da série de jogos em primeira pessoa chamada "Doom", de 1993), ambígua e inquietante, marcada por sensações simultâneas de reconhecimento e estranheza.

Para fechar essa introdução, gostaria de comentar um pouco sobre as mininovelas, o que são? Concebidas para a lógica acelerada dos ambientes digitais, as mininovelas consolidaram-se como narrativas audiovisuais breves, fragmentadas e altamente serializadas. Seus episódios, geralmente entre um e dois minutos, são estruturados em formato vertical, adequando-se ao consumo intenso e contínuo realizado em telas de celulares. Nesse cenário, plataformas como UOL Flash e aplicativos de vídeos curtos tornaram-se centrais para a disseminação desse modelo dramático, marcado pela velocidade narrativa, pelo apelo emocional imediato e pela adaptação às dinâmicas contemporâneas da atenção, com ângulos específicos, enquadramentos e toda uma outra configuração de câmera e equipamentos, sem falar nos protagonistas que em todos os episódios estão em cena.

Esse cenário tem levado grandes emissoras, como a Globo, a desenvolverem seus próprios aplicativos voltados à circulação dessas pequenas produções audiovisuais, direcionadas a uma geração acostumada a consumir “o quase nada” na velocidade de um piscar de olhos.
O mais interessante, contudo, é perceber que o apelo dessas novas mídias parece emergir de uma transformação mais profunda na experiência contemporânea do tempo. Trata-se de uma temporalidade fragmentada, acelerada e descontínua, que já não permanece restrita às telas dos celulares, mas começa a atravessar a própria vida cotidiana. Em uma aula sobre mininovelas, um aluno me disse: “Professor, a aula perfeita seria de 1 minuto e 30 segundos.” A frase, aparentemente banal, talvez revele muito sobre as novas formas de atenção, expectativa e relação com o conhecimento produzidas pela cultura digital.
Entretanto, há uma contradição oculta — quase um easter egg — nessa relação entre os jovens e as supostas novelas de 1 minuto. Quando se começa a assistir às mininovelas, um episódio se conecta imediatamente ao outro, criando um fluxo contínuo de retenção. Assim, quando o espectador percebe, já se passaram 20 ou 30 minutos diante da tela.
Ou seja, talvez não estejamos exatamente diante de uma fragmentação do tempo, mas de uma nova engenharia da permanência. O episódio curto funciona como isca: uma aparente “olhadela rápida” que conduz o usuário a uma sequência quase infinita de capítulos, mantendo-o capturado dentro do aplicativo. Como nas Backrooms, trata-se de um labirinto sem saída evidente, estruturado para prolongar a permanência, a atenção e o consumo contínuo das imagens.

A partir dessa introdução, podemos articular as imagens e ideias anteriormente apresentadas ao imaginário da educação e a algumas de suas problemáticas contemporâneas, sobretudo quando pensamos nos enigmas — ao mesmo tempo fascinantes e inquietantes — que emergem das relações entre ensino e aprendizagem, educadores(as) e participantes [ou, mais convencionalmente, professores(as) e alunos(as)], em meio à cultura digital.
Contudo, o que proponho aqui não são respostas, mas perguntas tentaculares e aracnianas. Tal como as redes infinitas de corredores das Backrooms, essas questões não conduzem a saídas definitivas, mas a brechas, desvios e lacunas que talvez nos permitam pensar coletivamente de que maneira (e de que meios criptografados - creepypastas?) a geração atual vem comunicando suas angústias, seus ruídos e suas impossibilidades de diálogo com a geração de professores(as), educadores(as), comunicadores(as) e produtores(as) de imagens.
Nesse contexto, tornam-se especialmente relevantes prestar muita atenção nos chamados “showrunners de microdramas” — ou criadores de storytelling algorítmico —, pois são eles que hoje manipulam as imagens, reorganizam versões da realidade e compreendem, com precisão, a temporalidade fragmentada da atenção contemporânea. Suas produções, moldadas para os ritmos de fruição do TikTok, do Instagram e de outras plataformas, parecem captar com maior eficácia as sensibilidades, ansiedades e formas de percepção da geração atual.
Seriam os backrooms uma maneira de expressar esse vazio/cheio da presença da ausência dos (as) alunos (as) em sala de aula? Seriam os backrooms um reflexo da confusão mental, um avesso das aulas (propostas por alunos) de 1min e 30 seg (assim como as novelas de 1min e 30seg) ? Seriam os backrooms representações imagéticas do quão arredio é o tempo expandido das aulas tradicionais para os alunos em sala de aula? Seriam os backrooms a materialização da angústia dos alunos frente aos grandes textos que demandam tempo expandido de leitura em comparação as novas temporalidades das redes sociais? Seriam seus novos labirintos, agora associados ao enfado de ouvir os (as) professores e educadores (as) horas e horas nas salas de aulas? Seriam os backrooms representações imagéticas pela busca de caminhos, mas que ao mesmo tempo se articulam como caminhos sem saída e com seres estranhos e com monstros a espreita? Seriam os backrooms formas gamificadas de comentar o real, a educação e o vazio que representa hoje o conhecimento para a geração atual? Seriam os backrooms uma forma de dizer que esse vazio dos jovens em sala de aula é preenchido de algo que os (as) professores (as) não conseguem entender?
Fica o convite as reflexões.
Ricardo Macêdo é Prof. de Artes no IFMG - Campus Ouro Preto, MG.



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